23 de junho de 2017

ALEGRES OU TRISTES


        - Tais Luso 
Amigos dizem que gostam dos meus textos porque são alegres e contém uma certa ironia que agrada. Claro, isso me lisonjeia muito. Li muitos autores maravilhosos e, sem querer, mas querendo, aprendi muitas coisas. Aprendo sempre. Meu espírito também ajuda, uso de recursos para dizer o que penso sem pegar muito pesado. Com mais leveza vou abrindo meus caminhos com  dedicação, gostando de dar minha opinião sem ser interrompida. Dei boas gargalhadas com certas ‘tiradas’ criativas desses escritores que li. Pensava comigo ‘esse cara é genial!’. E hoje, esse estilo faz parte de mim. Passei anos a procurar livros, andei por feiras, livrarias e sebos. Adoro os sebos (livraria de livros usados e antigos), há neles uma vida diferenciada, um cheirinho de páginas amareladas guardadas pelas capas curtidas.
Hoje, fui cortar o cabelo, e ao lado tem um sebo muito conhecido, marquei para sair do salão e dar uma chegada ali, mas saí tão atarantada com meu cabelo que fui para o lado oposto. Quando corto o cabelo fico meio desorientada, pior que turista em Tóquio.
Agora, sentei aqui pensando num texto, mas antes de começar a escrever, abri meus e-mails e num deles havia uma música que mexe muito com meus sentimentosUnchained Melody, do filme Ghost. De imediato vi que não sairia nada alegre, não teria condições,  me fechei como uma ostra.
Unchained Melody foi a música que escolhi para a cremação de minha mãe e lembrei que preenchi o cheque, para seu velório, chorando. Por que eu? Que sensação horrível foi aquela! Me senti quase um coveiro! Pedro e minha filha entenderam e me mimaram um pouquinho. E o auge da cerimônia se deu através dessa música. Vi minha mãe muito fragilizada com o falecimento de meu pai. E isso me abateu. Não gosto de pensar.
Agora, meu espírito mudou, estou recolhida, emotiva, pensando nos pontos duros da vida: um pensamento voltado às coisas que temos de enfrentar, as inseguranças normais, os meus limites, as minhas perdas, o meu andar...  Não tão longo andar como o de meu poetinha Quintana quando escreveu  seu poema O Mapa. Mas um andar também maduro.
Quando estamos felizes agimos como se tivéssemos sete vidas! É energia sobrando, é fôlego, é alegria, mas nem sempre temos o poder de dirigir nossa mente. E cá estou, meio circunspecta, sem nenhum sorriso a exibir porque meu coração não está aberto. Mas assim é a vida, ora felizes, ora pensativos e reservados. De dia reina o sol, à noite o luar. Tudo em mutação. Mas o bom é saber que o sol sempre volta.
E amanhã, o receberei com outro espírito, por certo.

Melodia para minha mãe


16 de junho de 2017

DESVENTURAS DOMÉSTICAS


           - Tais Luso

 Toda a contravenção é estressante. Maus profissionais existem em todas as profissões. No emprego doméstico, também. São chamadas hoje de diaristas. Ou empregada doméstica. É um trabalho digno, exercido por gente boa e que precisa de trabalho. Mas também tem alguns rolos! A confiança teria de ser 100%. Coisa rara.
Tivemos inúmeras empregadas. Nossa primeira empregada, chamava-se Cenira. Com ela começaram todos os meus pesadelos. Tudo o que quebrava, não dizia; de nada sabia... Certo dia  peguei a criatura comendo a papinha de minha filha, ainda nenê - hoje, já adulta. Ora, vá lá eu ter confiança numa mulher que  come a comida da minha filha! Mas adoro fazer justiça; e fiz. E também aproveitei para destrambelhar um pouco. 
Tive outras tantas empregadas, surpreendentes! Tínhamos um papagaio, o Zezinho, reconheço que o bichinho era um tanto desbocado, nunca soubemos quem o alfabetizou. A empregada era evangélica. Cada vez que ela passava por ele, ouvia um palavrão, FDP. Certo dia, ela terminou seu serviço e foi embora. Senti falta das algazarras do papagaio e fui lá vê-lo. Zezinho não estava mais na gaiola, ela o havia soltado e também nunca mais voltou ao emprego. Sumiu. Mas ficou a eterna saudade do Zezinho. Passei a colocar  diarista duas vezes por semana, mas...
Aconteceu numa certa sexta-feira, o cheiro putrefato na cozinha estava insuportável. Desmontei tudo, e nada... A infeliz tinha esquecido de levar a carne que escondeu num vácuo, debaixo do tanque na área de serviço. Mas o que mais me irritou foi quando ela chegou na 3ª feira e mostrou-se surpresa. Optei, então, por colocar diaristas de mais idade, o que não resolveu porcaria nenhuma.
Entrou a Valdeci. Quando terminou seu serviço, vi que sua sacola havia engordado... Ah, pensei comigo...chega! Pedi que buscasse dois litros de leite no supermercado. Fui com muita certeza na sua sacola: tiro e queda: encontrei café, sabão em pó, açúcar, arroz e carne! Tudo embrulhadinho e seu casaco por cima. Foi muito estressante! Deve ter acontecido outras vezes, nos dias de minhas aulas.
Passaram-se anos com muitas histórias. E resolvemos mudar de esquema: almoço de fora! Hoje tenho uma faxineira, apenas uma vez por semana. Gosto dela. Só tem um probleminha: ela está com 63 anos, artrose no joelho e coluna, a coisa tá difícil...  Quando ela aperta a campainha eu já lhe dou um  Dorflex! Mas como está há dez anos conosco, não penso em abandoná-la nessa sua fase difícil. Estamos navegando... Não sei por quanto tempo. 
Resumindo: há comportamentos que o tempo não apaga e não modifica! Sim, queridos, isso faz parte do nosso cotidiano mais simples. Lidar com a nossa própria espécie é muito difícil. E incomoda muito. 
     

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9 de junho de 2017

OS CICLOS DA VIDA



                  - Tais Luso
           
Estou pensando seriamente em deixar o Brasil ou me mudar de cidade!’
Não, não é nada comigo! Na verdade, essa frase corre pelo Brasil, dita por pessoas que estão chegando em suas aposentadorias ou por jovens que estão com o pé na estrada para começarem suas vidas. Os dois extremos. Mas também se escuta isso de muitos dos 14 milhões de desempregados que lutam para sobreviver.
Também sonhei há muitos anos em morar noutro lugar, no interior do meu Estado, cidade serrana linda, tranquila, segura, junto à natureza. Mas ficou no sonho. A família crescendo, a vida me amadurecendo e hoje não penso em sair de onde moro, apesar das  coisas no meu país não estarem nos trilhos.
O amadurecimento nos dá, entre tantas coisas, uma boa estabilidade emocional. Pelo menos se presume que assim seja. Chega um tempo que a vida deixa seu recado: ‘Ou você amadurece ou vai se danar!’ E o primeiro sinal aparece nesse ‘sossegar’. Amadurecer é querer o necessário, é largar as fantasias e os fricotes. Sonhar, sim, mas com o possível, com o realizável. Mas chega o tempo em que há de se respeitar os ciclos da vida.
Até concordo com o êxodo dos jovens em desbravarem o mundo, tentar a vida em outro lugar, pode dar certo, sim. Mas não mais para nós, mais amadurecidos que na aposentadoria ainda pensamos nos  antigos sonhos juvenis. Passou aquele momento. Agora o sonho é outro.
As atitudes são diferentes. Uma mudança fora de época pode acarretar um arrependimento por inúmeros motivos. Constatei isso, inclusive em minha família.
Deixemos para nossos filhos tentarem seus sonhos, eles têm idade para se aventurar; alguns ainda têm idade para praticarem o Bungee Jumping; estão na idade para tentarem tudo. Estão com tempo para novos projetos, para guinadas ousadas. E se necessário for, haverá tempo para um reinício.
Conversando com uma amiga sobre isso - alguns de seus filhos estão de muda para outro Estado, resolveram tentar uma cidade pequena e calma -, achei que ela e o marido também iriam, tal a insistência dos filhos. Mas ouvi dela palavras que me surpreenderam:
Taís, nós não vamos, nosso lugar é aqui, árvore madura não se transplanta, amiga!
Palavras sábias. Tudo tem seu tempo certo.

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2 de junho de 2017

POUCOS NO LUXO, MUITOS NO LIXO



         - Tais Luso

Ouvi de uma pessoa que ao abordar em suas crônicas  temas relevantes, sentiu que todos eles passavam despercebidos em comparação aos textos de pessoas que escreviam sobre o sofrimento dos animais nas mãos dos humanos. Teve um surto e resolveu escrever (com agressividade) sobre os ‘cachorreiros’ que passeavam com seus cachorros nos parques.  Contou que sua caixa de e-mails explodiu! Ficou feliz. Coisas difíceis de entender. 
Mas... em geral, quem tem um animal de estimação canaliza sentimentos, não reprime. Animais não nos ofendem, são amorosos, amigos sensíveis. Temos qualidades, por certo, mas somos muito complicadosNós é que cometemos atrocidades. Não eles.
Estou sentada em frente ao monitor, escutando música. Certas músicas me emocionam, umas me alegram, outras me levam a refletir. A verdade é que minha sensibilidade oscila conforme o que a vida me apresenta.
E aqui, eu escrevendo com minha alma aberta na ânsia de obter respostas para tantas perguntas sobre um mundo insatisfeito. Convivemos com uma violência gratuita, somos agredidos pelos gananciosos e loucos enquanto milhões de pessoas convivem com a falta de perspectiva para suas vidas. Estamos nos acovardando, quem não percebe? Somos assaltados com armas sem o direito de defesa, mesmo em nossas casas estamos à disposição dos delinquentes. É justo não termos a opção de defesa nem dentro de casa? Não nos é permitido portarmos armas. Vivemos numa sociedade agonizante cujas causas sociais são visíveis.  É incrível, mas parecemos um povo feliz por vivermos num país tropical, por termos um carnaval show, belas praias, sol e ser o país do futebol? Menos,  menos... isso é muito pouco para fazer um povo feliz.
Mas a felicidade é relativa: para uns é apenas conseguir comer. Para outros é fugir das guerras; para outros é ter um lugar simples para morar; para outros é curar-se de doenças... Mas para uma minoria criminosa, é ter mansões, grifes, e se deliciar com seus bilhões roubados do povo como se fossem viver quinhentos anos! É aparentar luxo enquanto boa parte dos habitantes  moram próximo dos lixões ou em vilas sem saneamento. E isso se espalha pelo mundo.
Acredito que num século qualquer, o mundo poderá ser mais feliz, mas não com doses homeopáticas, e à conta-gotas… Enquanto houver tamanha desigualdade e impunidade, jamais haverá alguma mudança.
Um país cresce e se faz grande e próspero com pessoas honestas. Com governos honestos.

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26 de maio de 2017

VOU CONTAR PRO TEU PAI !



- Tais Luso
Devido a situação política do nosso país, de ver tantas coisas absurdas no Congresso Nacional, no Governo e Instituições, sentei na frente da tela do computador e veio o bloqueio para a crônica de sexta-feira - nada de ideia! Não consegui concatenar coisa alguma... E pensei, deu pra mim! Escrever sobre nossas mazelas nacionais? Não, não quero registrar mais nada disso. Dá nojo.
Lá pela metade da tarde, quando eu estava tentando escrever algo, Pedro foi na cozinha e perguntou-me se eu queria comer uma banana para esperar a hora do jantar.
Banana? Pode trazer, mas amassadinha com canela e açúcar!
A fisionomia do 'homi' mudou!
Não!! Amassar banana dá muito trabalho, come natural, é igual!
Não, não gosto de comer banana na casca. Deixa a bananinha pra lá...
Então também não vou comer nada, vou esperar o jantar – disse Pedro.
Pensei bem e vi que não seria grande sacrifício comer uma banana ao natural, assim ele também comeria. Tudo solucionado. 
Pois é, mulher é assim. Homem é prático, resolve tudo sem lenga-lenga. Mulher tem de enfeitar tudo! Descasquei a tal banana me sentindo um troglodita. Pensei: meu Deus, como as mulheres são diferentes dos homens! Por isso que os filhos 'aprontam' para as mães e respeitam mais os pais. Respeitam a dureza, a disciplina... Na minha casa a Bíblia da minha mãe se resumia a um versículo:
       – Vou contar pro teu pai!!
Quem não ouviu isso quando criança? A força delas estava nos maridos, só que meu pai era uma pessoa doce, amigo, sensível, cauteloso,  então a tal frase nunca me incomodou. Minha geração já não usou esse artifício, resolvíamos nossas pendências de várias maneiras, aliás, algumas bem criativas. Não pensei mais na  importância da banana, mas pensei em outras coisas que herdamos e que ainda causam tumulto. Nós mulheres somos muito sentimentais, muito complicadas, somos capazes de sentir culpas e mágoas por coisas pequenas demais. Tudo porque nos doamos por inteiro; tudo porque vivemos intensamente cada coisinha. Cada minuto. E para todos.
À noite, uma surpresa: apareceu na mesa um feijão-mexido temperadinho, à moda mineira, ovos e suco de mamão com laranja! Tudo no capricho. Quem será que fez?  Só tive o trabalho de aquecer o creme de milho...
Esqueci de imediato daquela banana amassada com canela e açúcar, que na real nem tinha me apetecido tanto.

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19 de maio de 2017

DE QUE RIEM OS PODEROSOS?

  


              - Affonso Romano de Sant'Anna 

      

          De que riem os poderosos?
          tão gordos e melosos?
          tão cientes e ociosos?
          tão eternos e onerosos?


          Por que riem atrozes
          como olímpicos algozes,
          enfiando em nossos tímpanos
          seus alaridos e vozes?


          De que ri o sinistro ministro
          com sua melosa angústia
          e gordurosa fala?
          Por que tão eufemístico
          exibe um riso político
          com seus números e levíticos,
          com recursos estatísticos
          fingindo gerar o gênesis,
          mas criando o apocalipse?


          Riem místicos? ou terrenos?
          riem, com seus mistérios gozosos,
          esses que fraudulentos
          se assentam flatulentos
          em seus misteres gasosos?


          Riem sem dó? em dó maior?
          ou operísticos gargalham
          aos gritos como gralhas
          até ter dor no peito,
          até dar nó nas tripas
          em desrespeito?
          Ah, como esse riso de ogre
          empesteia de enxofre
          o desjejum do pobre.


          Riem à tripa forra?
          riem só com a boca?
          riem sobre a magreza dos súditos
          famintos de realeza?
          riem na entrada
          e riem mais
          - na sobremesa?


          Mas de tanto riem juntos
          por que choram a sós,
          convertendo o eu dos outros
          num cordão de tristes nós?



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Affonso Romano de Sant'Anna nasceu em Belo Horizonte MG/Brasil - 1937. Poeta, crítico e professor de literatura e jornalista. Ainda pequeno, muda-se com a família para a cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais, onde inicia seus estudos e se aproxima da literatura ao frequentar as bibliotecas públicas. Começa a carreira jornalística em 1953, publicando críticas de cinema e teatro no Diário Comercial e na Gazeta Mercantil.
De família protestante, em 1954, viaja por diversas cidades mineiras pregando o Evangelho em favelas, hospitais e presídios. Em 1962 o bacharela-se em letras neolatinas na Universidade Federal de Minas de Minas Gerais e publica seu primeiro livro de ensaios, O Desemprego do Poeta. Organiza, com outros poetas mineiros, a Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte, em 1963.
Em 1964 obtém o grau de doutor pela UFMG, com apresentação de tese sobre o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987). Casa-se com a escritora Marina Colasanti, e em 1970, vai residir no Rio de Janeiro. Ministra cursos na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - e na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Como professor convidado, dá aulas de literatura e cultura brasileiras em universidades da França, Alemanha e Estados Unidos. Assume a presidência da Fundação Biblioteca Nacional em 1990. Um ano depois, cria a revista Poesia Sempre, importante veículo de divulgação da poesia nacional no exterior. É nomeado, em 1995, para o cargo de secretário-geral da Associação das Bibliotecas Nacionais Ibero-Americanas. Também colaborador assíduo da imprensa em toda sua carreira jornalística, escreve textos para os jornais O Globo, Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil, Jornal da Tarde, Correio Brasiliense e O Estado de Minas. Tem poemas traduzidos para o espanhol, inglês, francês, alemão, polonês, chinês e italiano.
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Sant’Anna, Affonso Romano, 1937
Poesia Reunida: 1965-1999 / Porto Alegre, LM&M Pocket – 2004
Apoio biográfico – Itaú Cultural


12 de maio de 2017

O CURSO DA VIDA



       - Tais Luso

     O assunto pode ser um tanto macabro, mas será que algum de vocês nunca teve medo de ser enterrado vivo? Lembrei de ter assistido uma entrevista da jornalista Marília Gabriela com o padre Fábio de Melo. Lá pelas tantas ela lhe perguntou qual seria seu maior medo? E a resposta desceu para mim  justa, sob medida, na lata: 
'Ser enterrado vivo!' 
Putz... não dormi mais. Um pensamento desses na calada da noite?
     Como sou um tanto dramática, fiquei a imaginar coisas. Passei do caótico, do medo incontestável para um velório meramente social, às vezes hilário, onde os saudosos se encontram e colocam o papo familiar em dia:
-  A nossa prima, filha da tia Isolda tá enorme, engordou 40 quilos!
-  Não acredito!! Era tão linda, corpinho de miss! O que houve?
-  Depressão, o noivo se mandou um dia antes do casório!
     E eu ali, ouvindo aquilo, olhando o defunto, querendo rir e não poder! Não me dou muito bem em velórios, vejo num canto algumas caras alegres, surpresas com certas fulanas que há anos não se viam; noutro canto algumas carpideiras, treinadas para chorarem sem sentir dor. É difícil entender.
     O drama começa na chegada do cemitério: encarar  a viúva e filhos consternados na beira do caixão, e o mortinho ali, como se me dissesse...
-  Você será eu amanhã!
    Me dá enjoo, começo a suar. Aquela fisionomia tranquila do defuntinho, e por vezes até bonita, não me acalma. Constato que os traços são leves, sem marcas de agressividade. São traços serenos. Sem nenhuma patologia. Realmente ele se foi!
    Infelizmente  é a nossa sina, ninguém escapa desse processo que nunca é bem-visto. Ninguém quer falar. Um ser sem vida é algo que atordoa, que nos acovarda. O que terá por trás dessa serenidade? Um espírito eterno? A paz que sempre buscamos? E agora José, pra onde?
     Só percebi meu cachorro na porta do quarto me fitando... Que estaria ele a pensar, ao me ver acordada no meio da noite escrevendo algumas ideias misturadas e conturbadas, e que talvez pela sua forte percepção conseguiu notar minha inquietação? Vou parar e esperar para que os primeiros raios de sol cheguem logo e dissolvam meus pensamentos meio nebulosos.
     É bom demais ver a vida brilhar.


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5 de maio de 2017

A GULA – O PECADO CAPITAL

       
Restaurante Vegetariano Botânico - POA  / o recanto das frutas...
        - Tais Luso
A Gula é um desejo de consumo alimentar além do necessário; uma vontade insaciável de comer o mundo. Olhar para um bufê é algo que mexe com todos nossos sentidos.
O chamado prato livre em restaurantes, é moda. Come-se um pouco de tudo o que existe no bufê. Eis a gula! Difícil é resistir a tanta oferta. Atrás desse condicionamento, de comer muito, existe um ser ansioso. Os gulosos têm medo de perderem algo. É uma sofreguidão.
Aqui em casa somos vegetarianos. Mas eu não sabia que os vegetarianos também comiam o mundo. Foi uma surpresa. Pensei que fossem bem conscientizados sobre a quantidade. Não, os vegetarianos são conscientizados na qualidade do que querem. Com a desculpa de não se comer carne, é bem possível que exista uma compensação. A gula é um condicionamento antigo, desde que o homem está no mundo, desde o tempo que se caçava animal à unha. Mas a comida vegetariana também engorda, portanto depende da nossa atitude. É um estilo de vida que gosto muito.
Há anos que escuto tudo sobre os alimentos que não são saudáveis. E na época me preocupei um pouco. Lembro que eu fazia muitos sucos, um deles era de tomate misto. Tomates estavam em alta como valor nutritivo. Entusiasmada, achei que levaria minha família mais longe, sendo mais saudável. Mas depois descobriram que o tomate não fazia jus à fama, só enrolava, servia apenas para embalar belos molhos. Excluí o inofensivo tomate que não ajudava em nada.
Também surgiram como vilões, o abacate, os ovos, as farinhas, o inocente iogurte, o camarão, carnes vermelhas; foi-se meu churrasco! O coitado do frango entrou numa hormonoterapia para o engorde! Sobrou o fantástico bacalhau e outros peixes do time, feitos com molhos especiais.
Hoje, muitos dos antigos apenados foram perdoados e voltaram às mesas, triunfantes e acarinhados pelos especialistas.
Cresci comendo ovos quentes todos os dias, carne, abacate, manteiga, bolo, churrasco, maionese, iogurte, sorvete... Mas de repente parecia uma conspiração contra uma geração bem alimentada, forte ao natural.
Passei bons anos sem comer ovos quentes, e hoje os especialistas receitam ovos todos os dias, pois contém ácido fólico, vitaminas B5, B12, B6, D e vitamina K . Como ninguém viu isso? Como foram abolir esse alimento? Ficou sem explicação. Hoje penso duas vezes antes de dizer Amém. Um dia a gente aprende a se comandar. Sempre há tempo para retomar - mas sem gula.
Haveremos de comer para viver, não viver para comer!

     

27 de abril de 2017

PABLO NERUDA - TENHO MEDO



        

        Tenho medo. A tarde é cinzenta e a tristeza
        do céu abre-se como uma boca de morto.
        Tem o meu coração um pranto de princesa
        esquecida no fundo de um palácio deserto.

        Tenho medo. E me sinto cansado e pequeno
        refletindo a tarde sem meditar sobre ela.
        Na cabeça doente não cabe um menino
        sonhando, assim no céu não caberá uma estrela.

        Nos meus olhos, no entanto, uma pergunta existe,
        um grito em minha boca e a boca não grita.
        Não há órgão que escute minha queixa mais triste
        abandonada em meio à terra infinita!

        Vai morrer o universo em sua calma agonia
        sem a festa do sol e o crepúsculo verde.
        Agoniza Saturno e sua pena me enlia,
        a terra é fruta negra que o céu nunca perde.

        E pela vastidão do vazio vão às cegas
        as nuvens que entardecem, são barcas perdidas
        que esconderam estrelas rotas nas adegas.
        Cai a morte do mundo sobre a minha vida.

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Pablo Neruda – Crepusculário / L&PM – pg 115
Pablo Neruda – 1904/1973 nasceu no sul do Chile, na cidade de Parral onde morou até a morte de sua mãe. Seu nome verdadeiro era Ricardo Eliecer Neftalí Reyes Basoalto. Nada lhe foi indiferente. Entregou-se ao ritmo da vida e foi seu intérprete. Amou e foi amado. Seus poemas de amor são um dos legados mais perfeitos, emocionaram e emocionam várias gerações. Admirado internacionalmente (é personagem do filme O Carteiro e o Poeta), recebeu a consagração definitiva com o Prêmio Nobel de Literatura em 1971. Sabidamente um dos mais importantes poetas dos tempos modernos, deixou uma extensa obra, com mais de 50 livros, que foram traduzidos para vários idiomas, tendo uma vendagem superior a um milhão de exemplares.
Atingiu um dos mais altos patamares da poesia do século XX.



21 de abril de 2017

A FORÇA DAS NOSSAS RAÍZES


       
                           - Tais Luso
Tantas são as notícias de falcatruas bilionárias que saqueiam nosso país, que não tem como viver cem por cento em paz. Esperanças se esvaem. Talvez o sonho fique para outras gerações. Como esquecer desse pesadelo se chegam a nós centenas de notícias das mais estapafúrdias? Buscamos certezas, mas não existem certezas. Queremos continuar a morar na nossa terra onde plantamos nossas raízes.
Nos meus 19 anos (já vai muito tempo), fui para Alemanha fazer um curso e lá fiquei dois meses, março/abril. Conheci um país muito desenvolvido. Aquele povo exalava amor pelo trabalho, exalava honestidade pelos poros. Fiquei fascinada pelo que vi, pelo que compreendia naquela época. Não havia cobrador nos bondes, nas bancas de jornais, não havia desconfiança. Ao colocar o pé fora da calçada, os carros paravam para que eu atravessasse. Pensei: que gente educada! Ao chegar no Brasil, fui fazer o mesmo, poderia haver a mesma conscientização no meu país...E por pouco não fui atropelada ao querer atravessar a rua; o taxista botou a goela para fora do vidro e soltou um fdp – educadíssimo!  Melhoramos em alguns quesitos e pioramos noutros. 
Contudo, confesso que quase morri de saudades do Brasil. Lembro da minha felicidade ao retornar e entrar no espaço aéreo brasileiro. Havia pensado algo macabro... 'Se esse avião cair, morro feliz, morro no meu país!'
Essa é a força das raízes! E nunca esqueci o tanto que meu pensamento foi verdadeiro. A saudade explodiu no peito, o patriotismo exacerbou. E lágrimas escaparam.
Como falei no começo, nosso país foi saqueado, humilhado, o único material que temos disponível chama-se esperança em algumas de nossas Instituições, na temida Lava Jato, e nos homens honestos. E um dia, quem sabe, teremos um outro amanhecer.
Espero por um país mais íntegro, mais justo, mais humano. Que tenha corretivos. Que tenhamos leis fortes, que desapareça a impunidade. Não quero pensar, um dia, que o crime compensou.


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