19 de maio de 2017

DE QUE RIEM OS PODEROSOS?

  


              - Affonso Romano de Sant'Anna 

      

          De que riem os poderosos?
          tão gordos e melosos?
          tão cientes e ociosos?
          tão eternos e onerosos?


          Por que riem atrozes
          como olímpicos algozes,
          enfiando em nossos tímpanos
          seus alaridos e vozes?


          De que ri o sinistro ministro
          com sua melosa angústia
          e gordurosa fala?
          Por que tão eufemístico
          exibe um riso político
          com seus números e levíticos,
          com recursos estatísticos
          fingindo gerar o gênesis,
          mas criando o apocalipse?


          Riem místicos? ou terrenos?
          riem, com seus mistérios gozosos,
          esses que fraudulentos
          se assentam flatulentos
          em seus misteres gasosos?


          Riem sem dó? em dó maior?
          ou operísticos gargalham
          aos gritos como gralhas
          até ter dor no peito,
          até dar nó nas tripas
          em desrespeito?
          Ah, como esse riso de ogre
          empesteia de enxofre
          o desjejum do pobre.


          Riem à tripa forra?
          riem só com a boca?
          riem sobre a magreza dos súditos
          famintos de realeza?
          riem na entrada
          e riem mais
          - na sobremesa?


          Mas de tanto riem juntos
          por que choram a sós,
          convertendo o eu dos outros
          num cordão de tristes nós?



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Affonso Romano de Sant'Anna nasceu em Belo Horizonte MG/Brasil - 1937. Poeta, crítico e professor de literatura e jornalista. Ainda pequeno, muda-se com a família para a cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais, onde inicia seus estudos e se aproxima da literatura ao frequentar as bibliotecas públicas. Começa a carreira jornalística em 1953, publicando críticas de cinema e teatro no Diário Comercial e na Gazeta Mercantil.
De família protestante, em 1954, viaja por diversas cidades mineiras pregando o Evangelho em favelas, hospitais e presídios. Em 1962 o bacharela-se em letras neolatinas na Universidade Federal de Minas de Minas Gerais e publica seu primeiro livro de ensaios, O Desemprego do Poeta. Organiza, com outros poetas mineiros, a Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte, em 1963.
Em 1964 obtém o grau de doutor pela UFMG, com apresentação de tese sobre o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987). Casa-se com a escritora Marina Colasanti, e em 1970, vai residir no Rio de Janeiro. Ministra cursos na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - e na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Como professor convidado, dá aulas de literatura e cultura brasileiras em universidades da França, Alemanha e Estados Unidos. Assume a presidência da Fundação Biblioteca Nacional em 1990. Um ano depois, cria a revista Poesia Sempre, importante veículo de divulgação da poesia nacional no exterior. É nomeado, em 1995, para o cargo de secretário-geral da Associação das Bibliotecas Nacionais Ibero-Americanas. Também colaborador assíduo da imprensa em toda sua carreira jornalística, escreve textos para os jornais O Globo, Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil, Jornal da Tarde, Correio Brasiliense e O Estado de Minas. Tem poemas traduzidos para o espanhol, inglês, francês, alemão, polonês, chinês e italiano.
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Sant’Anna, Affonso Romano, 1937
Poesia Reunida: 1965-1999 / Porto Alegre, LM&M Pocket – 2004
Apoio biográfico – Itaú Cultural


12 de maio de 2017

O CURSO DA VIDA



       - Tais Luso

     O assunto pode ser um tanto macabro, mas será que algum de vocês nunca teve medo de ser enterrado vivo? Lembrei de ter assistido uma entrevista da jornalista Marília Gabriela com o padre Fábio de Melo. Lá pelas tantas ela lhe perguntou qual seria seu maior medo? E a resposta desceu para mim  justa, sob medida, na lata: 
'Ser enterrado vivo!' 
Putz... não dormi mais. Um pensamento desses na calada da noite?
     Como sou um tanto dramática, fiquei a imaginar coisas. Passei do caótico, do medo incontestável para um velório meramente social, às vezes hilário, onde os saudosos se encontram e colocam o papo familiar em dia:
-  A nossa prima, filha da tia Isolda tá enorme, engordou 40 quilos!
-  Não acredito!! Era tão linda, corpinho de miss! O que houve?
-  Depressão, o noivo se mandou um dia antes do casório!
     E eu ali, ouvindo aquilo, olhando o defunto, querendo rir e não poder! Não me dou muito bem em velórios, vejo num canto algumas caras alegres, surpresas com certas fulanas que há anos não se viam; noutro canto algumas carpideiras, treinadas para chorarem sem sentir dor. É difícil entender.
     O drama começa na chegada do cemitério: encarar  a viúva e filhos consternados na beira do caixão, e o mortinho ali, como se me dissesse...
-  Você será eu amanhã!
    Me dá enjoo, começo a suar. Aquela fisionomia tranquila do defuntinho, e por vezes até bonita, não me acalma. Constato que os traços são leves, sem marcas de agressividade. São traços serenos. Sem nenhuma patologia. Realmente ele se foi!
    Infelizmente  é a nossa sina, ninguém escapa desse processo que nunca é bem-visto. Ninguém quer falar. Um ser sem vida é algo que atordoa, que nos acovarda. O que terá por trás dessa serenidade? Um espírito eterno? A paz que sempre buscamos? E agora José, pra onde?
     Só percebi meu cachorro na porta do quarto me fitando... Que estaria ele a pensar, ao me ver acordada no meio da noite escrevendo algumas ideias misturadas e conturbadas, e que talvez pela sua forte percepção conseguiu notar minha inquietação? Vou parar e esperar para que os primeiros raios de sol cheguem logo e dissolvam meus pensamentos meio nebulosos.
     É bom demais ver a vida brilhar.


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5 de maio de 2017

A GULA – O PECADO CAPITAL

       
Restaurante Vegetariano POA - o recanto das frutas...
        - Tais Luso
A Gula é um desejo de consumo alimentar além do necessário; uma vontade insaciável de comer o mundo. Olhar para um bufê é algo que mexe com todos nossos sentidos.
O chamado prato livre em restaurantes, é moda. Come-se um pouco de tudo o que existe no bufê. Eis a gula! Difícil é resistir a tanta oferta. Atrás desse condicionamento, de comer muito, existe um ser ansioso. Os gulosos têm medo de perderem algo. É uma sofreguidão.
Aqui em casa somos vegetarianos. Mas eu não sabia que os vegetarianos também comiam o mundo. Foi uma surpresa. Pensei que fossem bem conscientizados sobre a quantidade. Não, os vegetarianos são conscientizados na qualidade do que querem. Com a desculpa de não se comer carne, é bem possível que exista uma compensação. A gula é um condicionamento antigo, desde que o homem está no mundo, desde o tempo que se caçava animal à unha. Mas a comida vegetariana também engorda, portanto depende da nossa atitude. É um estilo de vida que gosto muito.
Há anos que escuto tudo sobre os alimentos que não são saudáveis. E na época me preocupei um pouco. Lembro que eu fazia muitos sucos, um deles era de tomate misto. Tomates estavam em alta como valor nutritivo. Entusiasmada, achei que levaria minha família mais longe, sendo mais saudável. Mas depois descobriram que o tomate não fazia jus à fama, só enrolava, servia apenas para embalar belos molhos. Excluí o inofensivo tomate que não ajudava em nada.
Também surgiram como vilões, o abacate, os ovos, as farinhas, o inocente iogurte, o camarão, carnes vermelhas; foi-se meu churrasco! O coitado do frango entrou numa hormonoterapia para o engorde! Sobrou o fantástico bacalhau e outros peixes do time, feitos com molhos especiais.
Hoje, muitos dos antigos apenados foram perdoados e voltaram às mesas, triunfantes e acarinhados pelos especialistas.
Cresci comendo ovos quentes todos os dias, carne, abacate, manteiga, bolo, churrasco, maionese, iogurte, sorvete... Mas de repente parecia uma conspiração contra uma geração bem alimentada, forte ao natural.
Passei bons anos sem comer ovos quentes, e hoje os especialistas receitam ovos todos os dias, pois contém ácido fólico, vitaminas B5, B12, B6, D e vitamina K . Como ninguém viu isso? Como foram abolir esse alimento? Ficou sem explicação. Hoje penso duas vezes antes de dizer Amém. Um dia a gente aprende a se comandar. Sempre há tempo para retomar - mas sem gula.
Haveremos de comer para viver, não viver para comer!

     

27 de abril de 2017

PABLO NERUDA - TENHO MEDO



        

        Tenho medo. A tarde é cinzenta e a tristeza
        do céu abre-se como uma boca de morto.
        Tem o meu coração um pranto de princesa
        esquecida no fundo de um palácio deserto.

        Tenho medo. E me sinto cansado e pequeno
        refletindo a tarde sem meditar sobre ela.
        Na cabeça doente não cabe um menino
        sonhando, assim no céu não caberá uma estrela.

        Nos meus olhos, no entanto, uma pergunta existe,
        um grito em minha boca e a boca não grita.
        Não há órgão que escute minha queixa mais triste
        abandonada em meio à terra infinita!

        Vai morrer o universo em sua calma agonia
        sem a festa do sol e o crepúsculo verde.
        Agoniza Saturno e sua pena me enlia,
        a terra é fruta negra que o céu nunca perde.

        E pela vastidão do vazio vão às cegas
        as nuvens que entardecem, são barcas perdidas
        que esconderam estrelas rotas nas adegas.
        Cai a morte do mundo sobre a minha vida.

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Pablo Neruda – Crepusculário / L&PM – pg 115
Pablo Neruda – 1904/1973 nasceu no sul do Chile, na cidade de Parral onde morou até a morte de sua mãe. Seu nome verdadeiro era Ricardo Eliecer Neftalí Reyes Basoalto. Nada lhe foi indiferente. Entregou-se ao ritmo da vida e foi seu intérprete. Amou e foi amado. Seus poemas de amor são um dos legados mais perfeitos, emocionaram e emocionam várias gerações. Admirado internacionalmente (é personagem do filme O Carteiro e o Poeta), recebeu a consagração definitiva com o Prêmio Nobel de Literatura em 1971. Sabidamente um dos mais importantes poetas dos tempos modernos, deixou uma extensa obra, com mais de 50 livros, que foram traduzidos para vários idiomas, tendo uma vendagem superior a um milhão de exemplares.
Atingiu um dos mais altos patamares da poesia do século XX.



21 de abril de 2017

A FORÇA DAS NOSSAS RAÍZES


       
                           - Tais Luso
Tantas são as notícias de falcatruas bilionárias que saqueiam nosso país, que não tem como viver cem por cento em paz. Esperanças se esvaem. Talvez o sonho fique para outras gerações. Como esquecer desse pesadelo se chegam a nós centenas de notícias das mais estapafúrdias? Buscamos certezas, mas não existem certezas. Queremos continuar a morar na nossa terra onde plantamos nossas raízes.
Nos meus 19 anos (já vai muito tempo), fui para Alemanha fazer um curso e lá fiquei dois meses, março/abril. Conheci um país muito desenvolvido. Aquele povo exalava amor pelo trabalho, exalava honestidade pelos poros. Fiquei fascinada pelo que vi, pelo que compreendia naquela época. Não havia cobrador nos bondes, nas bancas de jornais, não havia desconfiança. Ao colocar o pé fora da calçada, os carros paravam para que eu atravessasse. Pensei: que gente educada! Ao chegar no Brasil, fui fazer o mesmo, poderia haver a mesma conscientização no meu país...E por pouco não fui atropelada ao querer atravessar a rua; o taxista botou a goela para fora do vidro e soltou um fdp – educadíssimo!  Melhoramos em alguns quesitos e pioramos noutros. 
Contudo, confesso que quase morri de saudades do Brasil. Lembro da minha felicidade ao retornar e entrar no espaço aéreo brasileiro. Havia pensado algo macabro... 'Se esse avião cair, morro feliz, morro no meu país!'
Essa é a força das raízes! E nunca esqueci o tanto que meu pensamento foi verdadeiro. A saudade explodiu no peito, o patriotismo exacerbou. E lágrimas escaparam.
Como falei no começo, nosso país foi saqueado, humilhado, o único material que temos disponível chama-se esperança em algumas de nossas Instituições, na temida Lava Jato, e nos homens honestos. E um dia, quem sabe, teremos um outro amanhecer.
Espero por um país mais íntegro, mais justo, mais humano. Que tenha corretivos. Que tenhamos leis fortes, que desapareça a impunidade. Não quero pensar, um dia, que o crime compensou.


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14 de abril de 2017

O QUE SERÁ UMA PESSOA CHATA?

James Ensor (daqui)


     - Tais Luso
Ontem, com tanta coisa para fazer, andando meio pensativa, olhando para tudo e não enxergando nada, apressei o passo para pegar o sinal aberto aos pedestres. Mas logo senti uma mexida na minha bolsa...  putz, era aquela chata, brincando de assalto, tentando se passar por ladrão de celularQue calvário.  Alegria falsa no encontro: dois beijinhos pra lá, dois pra cá... Mas aprendi a não descartar um chato, às vezes eles têm serventia. Quando alguma coisa me aborrece, o encontro com um chato tem seu valor, eles me levam à muitas reflexões, e ao desgrudarem me deixam a certeza de que a vida é maravilhosa. Fica em mim a dimensão exata do que é a paz.
Uma das coisas mais difíceis não é pensar em me atirar de paraquedas ou despencar de Asa Delta. É conversar com um chato. Ele gruda em você, lhe pega no braço, lhe toca no ombro, empurra, cutuca a cada 10 segundos. E cospe; o chato fabrica muita saliva pela ansiedade de ter nossa atenção. O chato é íntimo - sempre! Tenho a sensação de que vou explodir. E já começo a me coçar... Fico vulnerável e nervosa!
Você reparou como o chato é festeiro? O infeliz gosta de todas as festas do mundo, e não tem constrangimento em se convidar a lhe fazer uma visita. Exatamente: ir na sua casa num fim de semana! E o pior é que aparece! O negócio dele é  interagir. Coisa de louco.
A pior coisa do mundo é um chato num carnaval de salão: o infeliz pula e se sacode em cima de você! Quer enturmar na sua mesa e fica numa euforia inigualável. Muita alegria incomoda.
Chatos são simpático demais. São espaçosos e inconvenientes, despejam emoção e alegria na medida errada: é aquela criatura que faz um berreiro num velório, é íntimo do defunto. Ainda não descobri qual a razão da coisa. Mas chego lá. Um dia descubro.
O chato sabe de tudo: se começamos a falar em viajar, ele está pronto a nos fornecer o roteiro dele. A mesma coisa acontece com filmes, teatro, restaurantes. O ponto forte do chato é conhecer tudo e todos. Ser catedrático e deixar em nós uma certa nesga de ignorância! 
Dias atrás, comentei com uma chata, que eu só conseguia escrever no silêncio ou no máximo com música instrumental tranquila, doce...
- Credo... você é parente de Matusalém? Tem de se modernizar, amiga!
Tudo que dissermos, o chato discorda: ele tem uma outra opinião sobre tudo. Ele é a unanimidade!
Não sei a razão, mas quando encontro um chato, quando ele começa a contestar tudo que falo, alguma coisa se apossa de mim, e me vem a ideia mais primitiva do ser humano... 
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7 de abril de 2017

RETRATOS DE FAMÍLIA




                       - Tais Luso
Há muitos anos ouvi uma frase: Família só é bonita em porta-retratos! Na época achei engraçada, mas não passou disso. Hoje, porém, a vejo de outra maneira, além de continuar hilária, o inventor acertou na mosca!  Também vejo, cada vez mais, um núcleo desestruturado e rancoroso. E haja jogo de cintura para se sair vivo de uma intriga familiar. Não existe nada tão complexo quanto Família! Mesmo porque a base de tudo é o ser humano. E se o ser humano piorou, consequentemente o mundo familiar - em parte -  piorou. O convívio mais parece uma pintura surreal, quase incompreensível para quem vai chegando...
Porém não quero dizer que não exista o amor familiar; ele está presente, mas não o suficiente para manter as pessoas em harmonia por muito tempo. Primeiro é o eu. E sobra pouco pra dividir. No primeiro tropeço, começa a desintegração.
Sim, aprendi, desde pequena, que a família é a base de uma sociedade saudável, e até concordaria, mas se saudável fôssemos. Estamos cada vez mais desorientados, e portanto  mais incapacitados para sentimentos. Para amar. Porém, não generalizo! Falo de famílias 'doentes'.
Nossa espécie está mais violenta do que nunca: tudo já aconteceu. Não sei qual surpresa pode estar a caminho, talvez a explosão do planeta. E não me surpreenderia. Nossos caminhos podem estar cheios de flores, mas também repletos de espinhos dos quais cultivamos com esmero, espinho por espinho. Existem algumas figurinhas que adoram cultivar ódio, é como se fosse um troféu! Seguindo as mídias, podemos constatar as últimas atrocidades: a mãe psicopata que jogou a filha no lixo; do pai que atira a filha pela janela; do filho que esfaqueia a mãe para obter droga; da mulher que envenena o marido; da mãe que vende a filha para ser prostituída; da filha que mata os pais com olho na herança, da mãe que mata o filho drogado... Fora quando  parentes do segundo escalão entram na jogada para aumentar a festa. Muito frequente.
Que coisa mais maluca! Enfim, uma parentada ordinária que não se sabe de onde surgiram. Isso se chama família? Mas é compreensível, pois na primeira família do mundo, um irmão matou o outro. Então nada a duvidar. E não são poucas as famílias que se atracam o dia inteiro.
Sempre teremos no nosso núcleo, uns parentes que farão o inferno astral dos outros, cooperando para a formação e instabilidade dessa base social.
E é nesse núcleo que nasce a inveja, a avareza, o ódio, o egoísmo, a intolerância, a arrogância...e por fim estará formado o caráter dos mais novos.
Mas é no núcleo familiar que aprendemos a armar confusões por coisas insignificantes; é no núcleo familiar que crescemos vendo as primeiras desavenças entre pai e mãe; é nesse núcleo que ficamos intolerantes; é no núcleo familiar onde começam nossas carências afetivas. E é no núcleo familiar que aprendemos a querer o mal do outro. É nesse núcleo que se formará  o ser humano.
É nesse núcleo - no término do casamento - que os filhos são colocados na linha de combate e atingidos pelos atos de vingança de seus pais. E depois dê-lhe terapia nos anjos. Que instituição é essa que o amor não sobrevive ou não se multiplica?
Família deve ser vista sem máscara e sem verniz. Se for boa e saudável, devemos reconhecer, exaltá-la. Será exemplo sempre. Se for desestruturada, por que não falar? Motivos cabem para averiguar de onde e porque desse mal. Quais as razões para tantos desentendimentos e crimes familiares?
Por isso que a frase lá de cima: Família só é bonita em porta-retratos, até procede. Nada mais de engraçado. Nele, as famílias ficam lindas e sorridentes para serem vistas pelas gerações futuras:
Este é o fulano, filho do sicrano e neto do beltrano!
Maraviiiilha!! Que linda família, que harmonia!!
São retratos de famílias num mundo conturbado e decadente em sentimentos.

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31 de março de 2017

UM ‘ADEUSINHO’ QUE CUSTOU CARO



                 - Tais Luso
 Não me debato mais nas minhas  noites de insonia, aprendi a me beneficiar desse estado de agonia. Olho no relógio e pluft – o infeliz é pontual, 3 horas da madruga! Aproveito para rememorar as frias que entrei. E dobro a noite na pauta da semana.
Foi num mês de janeiro. Não lembro do ano, mas faz tempo. Estávamos, eu, Pedro e nossos filhos – ainda adolescentescom as malas prontas para Camboriú, uma bela praia do Estado de Santa Catarina. Fui dirigindo pela Freeway. Os filhos um pouco apreensivos, com medo de que eu aprontasse mais uma das minhas.
No início da estrada, vi  um guarda rodoviário de braços levantados a balançá-los com vigor. Achei o gesto dele muito cordial, mas estranho, um pouco descoordenado para desejar boas férias, não precisava exagerar. Parecia aqueles bonecos de posto de gasolina com os braços voando para chamar a atenção. Mas como tudo era festa e sou educadinha, abri o vidro e abanei, mas sem diminuir a marcha, não lembrei desse detalhe...eu poderia ter diminuído...
Adeusinho... Obrigadaaa!!!
E continuei faceira, com pé de chumbo pela estrada afora...
Confiem em mim, turma!
E o nosso cachorro a mil, latindo faceiro da vida! O Pedro quase dormindo, exausto com as inúmeras malas, sacolas, a mala do  cachorro, a cama do cachorro, os brinquedos do cachorro... Tudo arrumadinho.
Uns 20 quilômetros, do ponto de partida, sentimos o fim do mundo desmoronando atrás de nós! Era a polícia rodoviária com sirene aberta e piscando  loucamente.  Fiquei muito conturbada, odeio barulho de sirenes, sou de família tranquila.  Olhei pelo retrovisor e fiz sinal para que passassem. Passem logo!! Passaram na frente e gesticulavam nervosos para que eu encostasse o carro. Quase vomitei de nervosa, mas encostei o carango. Ué, será que furou o pneu?
Vieram dois policiais,  com cara de ‘poucos amigos’.
Sua Habilitação, por favor!
Haháaa (pensei)... será que querem me pegar sem Habilitação?  Peguei a carteira, mas antes, dei uma espiada na foto, que coisa horrorosa, tenho trauma de foto 3x4.
Vou lhe multar: primeiro, porque a senhora não parou quando meu colega lhe fez sinal no quilômetro 20; e segundo, pelo excesso de velocidade.
Mas seu colega nos acenou desejando boa viajem, eu acenei agradecendo!!
Não, Senhora, ele lhe fez sinal para encostar o carro. A senhora não obedeceu. 
O policial  ficou me olhando… Achei melhor eu ficar quieta.  Eu tinha visto o aceno sobre um ângulo diferente: um desejo de boa viajem! Passei o carro para o Pedro,  ainda bocejando, e encerrei a história com uma boa multa. Tivemos a sorte de não ficarmos detidos.  Seguimos, quietos, aquilo foi um balde de água fria. Mas aprendi que polícia rodoviária não dá adeusinho pra ninguém! Quando acenam, é para parar, mesmo que o aceno seja meio desconcertado. Cada um...cada um!

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24 de março de 2017

SOBRE AS SEPARAÇÕES

                                 - Antonio Varas de La Rosa / 1954 Madri - Espanha


          - Tais Luso
Já escrevi sobre vários sentimentos, e hoje trago o sentimento preferido da criação poética, o Amor: um sentimento que traz a promessa de felicidade enquanto vida houver;  uma cumplicidade prazerosa, um companheirismo sem precedentes.
Amar é compartilhar das qualidades, mas também ser mais condescendente com os defeitos do outro. Não há nada no mundo que flua mansamente. Nem o amor. Sentimentos precisam ser cultivados, as exigências são muitas. Isso me leva a pensar nas separações que tenho visto. Meu Deus, como o ódio e o amor estão próximos! As separações se dão quando o amor cessa. E aí, aparecerão seres irreconhecíveis:
 "Como  pode? Que filho da mãe! Nos encontraremos na justiça! O apartamento e o carro são meus, vá morar na casa da sua mãe…" E assim caminha o verbo. 
As separações se dão de inúmeras maneiras, algumas inusitadas com o palavreado chulo que sai das bocas inconsequentes. Que coisa mais animalesca!
 E tanto faz o sotaque ser carregado, cantado, chiado ou numa voz aveludada. A destruição é a mesma, o sentido é igual. Não há resquício de refinamento. A harmonia entre as famílias do marido e da mulher não existe mais. Os amigos, antes comuns, agora dividem-se. Os telefones entram em colapso com todo o pelotão colocando mais lenha na fogueira.
Os filhos, que nada têm a ver com as maluquices e desencantos dos pais, são as primeiras vítimas da história. Esses inocentes passam a viver num burburinho de hipocrisia e rancor. As famílias passam a medir forças. As mulheres têm por norma se apoderarem dos filhos como se fossem só delas. Esse jogo é sujo, tanto quanto os pais se absterem ao sustento dos filhos.
Mas o caótico se vê na hora da divisão dos bens: o maior sonho é deixar o 'ex' depenado, sem nada. As famílias – paterna e materna – que antes se visitavam, que eram o elo amoroso das crianças, já se odeiam. Ninguém, nessas alturas, tem cabeça para resolver coisa nenhuma ou pensar no bem-estar dos filhos. Tudo vira guerra.
Homens e mulheres, portanto, cada um carregando sua fatia de culpa, cooperam para que a separação se torne um inferno. Atitudes assim jamais mudarão, homem e mulher não mudam quando as coisas os atingem; mudam suas posturas quando o barraco é na vida dos outros.
Mas o que me assombra é a rapidez com que o ser humano passa do amor ao ódio. Nessa hora até a poesia fica impotente. Nem ela consegue minimizar tanta sordidez. Já não há mais beleza. Então, só resta retratar a dor. 

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17 de março de 2017

CARNAVAL? NUNCA MAIS...



        -Tais Luso
Esse último Carnaval foi sofrido. E como! Eu fazia parte da Escola de Samba Beija-Flor, do Rio de Janeiro. Arrumei as malas e lá fui eu cumprir mais um desafio: fazer jus à confiança da Beija Flor, dessa vez, para sambar na Avenida, no chão - samba no pé. Uma gaúcha sambando? Teria uma gaúcha o tal samba no pé? Era tudo o que ninguém acreditava. Mas eu tinha.
Durante o ano fui algumas vezes ao Rio para os ensaios marcados. Um misto de orgulho, medo e ansiedade se apossaram de mim no grande dia do desfile. Meu coração pulava de alegria.
Ainda cedo, comecei a me arrumar. Aquela fantasia era linda, mas complicada. Muita pedraria pesada.
Várias pessoas me chamaram pelo celular para estar o quanto antes na concentração. Mas de jeito nenhum isso aconteceu, o Rio estava muito congestionado. E comecei a entrar em pânico, suava, taquicardia, irritação e nada do carro chegar. Meu nervosismo foi tanto que chamaram um médico do hotel, nessa época sempre tem um plantonista. Minha pressão estava em 19, o que não era bom. Tomei um calmante e um comprimido para baixar a pressão. Para desmaiar seria um passo, poderia acontecer a qualquer momento. Suava. Sei lá, levo as coisas muito a sério.
As lágrimas mancharam a maquiagem, e tive de refazê-la. Mais tensão. Meu Deus, eu tinha compromisso! Qualquer mulher ficaria orgulhosa e estaria na concentração duas horas antes, juntando-se aos outros integrantes. Desandei a chorar, o que piorou o quadro de indisposição. Tudo estava errado, tudo. Pensava em voltar para Porto Alegre.
Oito horas da manhã, o relógio despertou-me. Tirou minha angústia! Tentei contar ao meu marido o drama de não conseguir chegar à Avenida Sapucaí, na concentração da Beija Flor, mas não consegui. O homem não entendeu nada! Nada. E começou a rir...
- ‘Beija Flor?’ Você... sambando? Samba no pé? Hum...
Custou a entender. E a ironia deixou-me furiosa. Só sei que tive a mais perfeita sensação de realidade!
Penso não ser mais necessário dizer nessa crônica que não sou carnavalesca, não sei sambar, nunca fui numa Escola de Samba, nunca coloquei fantasia e não gosto de Carnaval – mesmo sendo a mais famosa festa do Brasil.
Passei os dias de Carnaval em casa, escrevendo, lendo e assistindo filmes.
E que me perdoe a Beija-Flor pelas manobras do meu inconsciente.